terça-feira, 4 de maio de 2010

Terça-feira, calafrio número 1.

Havia acabado de acordar, mal tinha aberto os olhos e já me veio aquele frio na barriga, aquele frio que vem, as vezes, de repente, quando lembramos de algo que mexe com os nossos sentimentos. No meu caso, me lembrara da noite anterior, quando encontrei minha ex-mulher, linda como sempre, forte como sempre, mas não tão confiante como costumava ser. Não foi nada por acaso, apenas um combinado prévio, via messenger, para nos encontrarmos por alguns minutos, enquanto ela ia ao cinema, e eu à academia, simplesmente com o propósito de nos vermos.

Já há algum tempo que estavamos separados, e com o contato mútuo reduzido e apenas reservado para coisas estritamente necessárias. Encontrá-la, para mim, foi mais difícil do que imaginei que pudesse ser. Em nossa conversa, apenas banalidades, em nossos olhos, gritos e súplicas que poderiam ser vistos por qualquer pessoa que passasse. Não que estivéssemos com semblantes tristes ou abatidos. Mas era um olhar profundo, tanto o meu, como o dela. Sabiamos o que pensavamos, e internamente eu gritava, lamentava e chorava pelos acasos que nos fazem sofrer e abdicar de nossos sentimentos.

Alice estava se mudando para fora do país, era uma médica importante, precisava terminar sua última graduação, precisava atingir o todo em sua carreira. Eu, um jovem estudante, amante das artes, da literatura, da poesia, um sonhador talvez. Me mudara para São Paulo há um ano e meio quando haviamos decidido que nos casariamos e viveriamos juntos.

Alice sempre fora mais forte do que eu para os sentimentos, característica essa que tive que aprender a desenvolver em partes, talvez para não sofrer tanto. De qualquer modo, nunca tive muito sucesso nessa arte de dominar sentimentos, muito pelo contrário, sinto na maioria do tempo que eles me dominam, é como se uma força interna controlasse tudo aquilo que faço.

E ontem, quando a reencontrei, todos os meus fantasmas, medos e angústias foram ressucitados, visto que já há algumas semanas eles talvez haviam compreendido meu sofrimento e resolvido me abandonar, mesmo que temporariamente, como posso perceber agora.

A minha conversa, com aquela que fora há alguns meses atrás a pessoa com quem eu partilhava minha vida, meu amor e minha família, não se foi além de banalidades, acasos e perguntas do tipo como você está. De alguma forma temíamos questionar sobre os nossos dias separados, provavelmente por um possível e previsível medo de ouvir coisas desagradáveis, ciúme puro.

Foram apenas alguns minutos de caminhada e conversa, mas suficientes para me fazer acordar assim, como acordo agora, angustiado e com frios no estômago. As vezes paro e penso, será que na vida tudo é dessa forma finita? Mesmo que a lembrança possa perdurar no eterno. Não sei, hoje me parece que o que é infinito são momentos em nossas memórias, e nada mais que isso.

De qualquer forma, diante de qualquer questão, eu sabia: Alice nunca desistiria de seu objetivo, e eu nunca abriria mão da minha vida aqui para ir com ela. Fato que de certa forma me massacrava aos poucos, quase uma tortura chinesa. Estavamos separados, e destinados a um rumo que talvez nos afastasse ainda mais. Assim é a vida, cheia de despedidas.

Levanto, pé ante pé, desligo meu aquecedor, abro a janela, vejo a luz de um sol de outono meio tímido invadir o quarto, arrumo a cama e vou escovar os dentes. Ao olhar no espelho, tento sorrir e me preparar para uma nova jornada pela frente, mesmo sabendo que serei atormentado por um fantasma nas próximas horas, durante todo um dia de estudos.