segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O banho



   O vapor da água quase impedia a visão de todo o banheiro, o ambiente estava tomado pela umidade, suas mãos apresentavam os primeiros sinais de enrugamento. A casa permanecia quieta, o quarto estava silencioso. O som do chuveiro ecoava por todos os cômodos e era acompanhado por um leve e quase imperceptível choro.
   Para ela, o mundo lá fora havia parado. Não existiam ruas, não existiam pessoas, não existia nada, apenas aquele momento, ali, eternizado sob um chuveiro em um banheiro já bastante velho e desgastado. A luz era fraca, o espelho manchado, a pia suja, e o teto mofado. O chão, assim como a parede, estavam molhados pelo vapor.
   No quarto, seu vestido claro pendia sob um cabide afixado à porta do armário. Não havia muitos móveis. Apenas uma cama forrada com lençóis, duas cômodas e um pequeno móvel que sustentava uma televisão antiga. Sobre a cama, seu estojo de maquiágem, um par de pulseiras, documentos, e uma carta escrita para aqueles que a encontrariam.
   Já não dava pra saber há quanto tempo estava por lá, tudo se resumia àquele cômodo, àquele instante, àqueles minutos. Era o último instante de sua vida, e que ela gostaria que fosse exatamente conforme planejara. Lavava seus cabelos de uma forma que jamais havia feito, seus dedos acariciavam os fios encharcados por uma fina camada de água morna, e repetidamente os enxaguava. Suas mãos ensaboadas acariciavam sôfregamente todo o seu corpo, como se da pele quisesse tirar algo entranhado. Um cheiro cítrico se espalhava pelo ar, e a água quente escorria por todo o seu corpo de forma uniforme. Ela fechava os olhos, chorava, e não ouvia nada.
   Para ela, aqueles últimos minutos eram sua despedida. Toda sua vida passava em sua cabeça como um grande filme. Pensava em sua família, em seus amigos, em sua infância. Pensava nos seus sonhos, e em tudo aquilo que ela deixaria para trás. Suas lembranças não mais tinham forças para que ela desejasse estar viva ou simplesmente estar perto daqueles que amava. Lentamente se preparava, sentia cada suspiro de seu corpo, cada momento como se ali fizesse seu ritual de passagem para outra vida, para outra chance. Simplesmente ali, naquele chuveiro, naquele momento, naquele instante. E aquele banho, que já durava mais de uma hora, em alguns poucos minutos chegaria ao fim.

2 comentários:

Anônimo disse...

amei seu blog to akí lendo hehehe

bjon bruno felipe tamietti

Thaia disse...

Um mar de sensibilidade!