quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O almoço


   O relógio marcava meio-dia, não era verão, mas o tempo estava quente como uma fornalha. O vapor de água que ainda restava no ar desaparecia quase que instantaneamente, o tempo estava seco e o sol rachava na cabeça de quem passasse pela rua. Fazia um calor infernal. As máquinas trabalhavam, todos trabalhavam. A vida corria desenfreada, e a fuligem tomava conta do ar e dos pulmões de quem ali estivesse.
   O horário do almoço começava. A cidade estava em seu primeiro intervalo do dia. Enfurecidas nos restaurantes, as pessoas se digladiavam em busca de uma mesa vaga. O trânsito estava parado e as buzinas enlouqueciam quem por ali passasse. Era um perfeito caos e uma enorme desordem.
   Em uma daquelas ruas movimentadas da cidade, em meio ao calor escaldante, ao turbilhão de gente, de casas, de construções, um prédio era erguido. Um grande empreendimento comercial. Nessa enorme construção trabalhava João, mestre de obras, um senhor com seus quase sessenta anos e com muita experiência em construções. Um homem de feições rústicas, baixo, um pouco careca e com alguns dentes faltando. Ele era um exemplo perfeito de quase todos que trabalhavam ali e tinham mais ou menos a sua idade.
   Pouco após o meio-dia a sirene que sinalizava o intervalo tocou e todos pararam o que estavam fazendo, foram até seus armários, e pegaram o que tinham trazido para comer.
   João se sentou, assim como seus companheiros, na primeira sombra que pôde ver, alguns já estavam sentados, e os poucos que ainda restavam de pé já se acomodavam em algum canto junto ao concreto, aos sacos de cimento, e à muitas pedras. 
   Todos abriam o que tinham trazido de casa, a comida no geral não passava de muito arroz, feijão, farinha, ovo frito ou alguma carne de segunda pra acompanhar. Não bebiam nada, não falavam nada. As pessoas comiam  sofregamente, quase como animais. O suor escorria e o cheiro de trabalho exalava por todo o ambiente. O som dos talheres e das marmitas era o único ruído que dali saía. De alguma forma, e de certo modo, o silêncio tomava conta.
   A britadeira não trabalhava, o cimento não molhava, e nem sequer um tijolo era tirado do lugar. Diante daquela confusão de pedreiro, cimento, suor, talheres, marmitas, e comida, se iniciava o almoço. 

3 comentários:

Heitor Nunes disse...

entendi... =)

Tinho Valério disse...

Caramba, gostei muito de seus textos... Otimo blog! Já tô seguindo...

Tinho Valério disse...

Caramba, gostei muito de seus textos... Otimo blog! Já tô seguindo...